Escrevendo uma peça para o titio” é um resumo do “discurso da poesia dramática“, de Diderot, em formato de peça de teatro. No enredo deste texto cênico, duas meninas querem escrever uma peça para seu tio, e pensam na melhor maneira de agrada-lo.

 

Baseado em “Discurso sobre a poesia dramática” de Diderot

ESCREVENDO UMA PEÇA PARA O TITIO

AMANDA DUARTE
Prólogo
Duas irmãs, uma delas criança, querem apresentar uma peça para seu tio, Diderot. A
mais velha orienta a mais nova sobre as regras que elas devem respeitar para sua aprovação.
Personagens
Mariana – irmã mais velha
Valéria – irmã mais nova
Cenário
Uma cama coberta por um edredon colorido. Uma penteadeira com um banquinho na
frente. O parapeito da janela, com almofadas na boca do palco.
CENA I
Mariana está penteando o cabelo de Valéria, as duas estão de frente para o espelho.
Depois de ter uma laço amarrado em seu cabelo, Valéria vira para Mariana.
VALÉRIA
Vamos apresentar uma peça para o tio Diderot?
MARIANA
Você sabe como é o titio, não é, Val?
Valéria junta as sobrancelhas e faz um beicinho.
MARIANA
Essa sua cara é uma bela pantomima. Espontânea, engraçada e fácil de se descrever.
Mas isso é para ser visto mais pra frente. Primeiro, vamos fazer o esboço.
Mariana pega um caderno no parapeito da janela, de baixo dele sai uma barata,
correndo em círculos que ela mata com o chinelo rosa.
VALÉRIA
Que crueldade!
MARIANA
Não me julgue! Isso é uma coisa que o titio fala. “Não se deve acusar a natureza do
homem, mas as miseráveis convenções que a pervertem.”
VALÉRIA
Você adora usar as palavras do titio pra se safar. Pega o lápis, vamos escrever uma
comédia!
MARIANA
Coragem! Tive uma ideia, vou esboçar e escrever o plano.
Começa a escrever. Valéria olha para o caderno.
VALÉRIA
Essas personagens não tem nada a ver com a gente!
MARIANA
Nós tentaremos ficar parecidas com elas. É assim que tem que ser. Nós as buscamos,
não tentamos puxá-las a nós.
VALÉRIA
Ah, então eu quero ser uma fada, com varinha de condão!
MARIANA
Fadas não existem, Val. A peça tem que ser no mínimo convincente.
Valéria passa a língua na janelinha deixada pelo abandono do seu dente de leite e
mexe seu outro dentinho mole. Depois olha para baixo e logo volta a atenção para sua irmã,
que está escrevendo.
Posso ter pelo menos um vestido igual o da Princesa Elsa , brilhante e com aquela
calda gigante?
MARIANA
As roupas devem ser normais, mana. Quem vai acreditar que esta personagem sai por
aí com um vestido chique desses? O tio, de jeito nenhum o faria.
VALÉRIA
Então vamos colocar um cachorrinho na última cena?
MARIANA
Escrevemos do começo, em ordem, até a última cena. Podemos escrever de um jeito
que faça aparecer um cachorro no final.
Valéria comemora.
VALÉRIA
E se a gente enganar o tio Di durante a peça?
MARIANA
Tudo deve ser claro para ele.
VALÉRIA
Ah é? Então eu vou contar pra ele o que você fez no fim de semana que ele te
emprestou o carro.
MARIANA
Olha para os lados.
Eu quis dizer na peça. E o tio não ia gostar disso.
Volta a escrever.
VALÉRIA
Olha fixamente para a irmã, virando a cabeça de um lado para o outro. Volta a olhar
para o caderno.
Eu serei a vilã?
MARIANA
Você será um pouco má. Mas o tio com certeza sentirá compaixão por suas fraquezas,
e sua adoração por animais provará sua bondade. O tom da peça será de simples, de pouco
blablablá, mas muito sentimento. O tio Di vai sair cheio de impressões da nossa apresentação.
O cenário… Droga! Não sabemos pintar.
VALÉRIA
Mamãe sabe. Ela pinta exatamente do jeito que pedirmos.
MARIANA
AMANDA DUARTE
ESCREVENDO UMA PEÇA PARA O TITIO
Perfeito! O texto está pronto, vamos ensaiar amanhã. Agora é hora de estudar,
mocinha. Faça suas tarefas. Eu vou para o meu quarto, pois tenho um trabalho de
Farmacologia pra terminar. Depois venho aqui ver se você fez tudo, está bem, Val?
VALÉRIA
Sim, Mari Mariana.
Mariana dá um beijo na testa de Valéria e sai do quarto.
FIM

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